Há algumas semanas eu estava em uma das aulas de um curso que fiz, e, como de costume, há sempre uma música tocando ao fundo. Para quem trabalha com música, ou tem uma convivência com ela, é muito difícil não notar uma música…

Especialmente naquela noite, uma coisa me chamou muito a atenção, havia algo de errado com aquela música!

Somos adestrados a procurar os sons mais harmoniosos, o ouvido tenta equalizar frequências “sujas”; eu, por exemplo, não me importa que o som esteja alto (volume, intensidade), desde que esteja bem equalizado (boa regulagem).

Em contrapartida um som mal equalizado, feio, mesmo com pouco volume, acaba me incomodando bastante. Aliás, se há algo que incomoda na música é falta de equalização!

Não adianta habilidade individual do músico, entrosamento da banda, técnicas especiais da parte do cantor, se o som está ruim… A habilidade não chega ao ouvinte!

Estava tentando entender se era um erro de frequência que me incomodava, mas não era. A intensidade estava agradável, o ritmo era condizente com o ambiente, não havia nada de agressivo, tampouco suave demais, mas ainda era incômodo!

Meu Deus, o que será? – pensei. Pra quem vive de música, como eu, não há outra coisa no mundo que supere a importância da música, me vi obrigado a entender o que se passava, e quando acionei o máximo de minha atenção, SURPRESA!

A música estava DESAFINADA, e pior, o arranjo que havia nela estava FORA DE TEMPO!

Será possível?! Um cantor famoso, com contrato de gravadora, fama internacional, música estourada, desafinada e sem ritmo? Tudo bem que não era uma desafinação totalmente expressiva, e o atraso significava, talvez, ¹/4 de tempo (um atraso muito pequeno)…

Mas por quantos plug-ins, softwares, equalizadores, tratamentos, edições, e principalmente, ouvidos críticos, esta música passou antes de chegar na minha casa/carro/escola/rua?

Como ninguém sabia o que estava se passando, resolvi focar na aula, mas não esqueci o problema, quando cheguei em casa fui direto pegar um fone de ouvido.

Vamos à análise!

É claro que eu posso errar, não tenho a intenção de ficar julgando (no sentido de apontar erros) o que ouço, só procuro oferecer o melhor aos meus ouvidos, e o fato foi comprovado, a questão do tempo era realmente pequena, porém a desafinação estava me causando agonia!

Quem já gravou assovio, ou até quem assovia bastante, sabe que afinar um assovio pode ser tarefa muito difícil, e lembrei mais uma vez dos tratamentos que a música passa antes de ser lançada… Poderia ter sido afinada em estúdio! Poderia ter sido ajustada no ritmo certo, mas não foi! Por quê?!

Quando alguma questão mais aguda me angustia, busco, primeiramente, não incluir na análise o meu gosto musical, o gosto pode influenciar na interpretação.

Não se trata de gostar da música, do ritmo, do estilo, do cantor, banda, letra… Havia um aparente erro na música, o qual, já de antemão, me recusei a acreditar que tivesse passado despercebido, tinha que ser proposital…

Mas, afinal, qual é o propósito de “desafinar” uma música que vai tocar em tudo quanto é lugar e pretende render boas cifras em dinheiro?

É exatamente nesta frase que encontrei a resposta do problema: PROPÓSITO!

Qual o propósito de fazer uma versão acústica de uma canção que todo mundo conhece na versão de estúdio? Qual o propósito de fazer versões diferenciadas para tocar ao vivo, como por exemplo, partes da música dedicadas à voz do público (às vezes até sem banda), pot-pourri, medley?

Vamos entender algumas coisas:

  1. Cada formato tem o seu propósito:

A mesma música que é cantada por uma dupla, vai tomar outra identidade se for cantada por um cantor (a) solo, e será diferente se for de um cantor (a) solo, mas vai ser interpretada por um coral.

  1. Os elementos da música tem que “conversar” com o formato.

Pense em uma banda de rock alternativo com um solo de tuba, com certeza não teria o mesmo resultado se o solo fosse feito com uma guitarra!

O ritmo também tem papel importante nesta conversa, assim como a escala usada, os timbres dos instrumentos, e até mesmo a apresentação individual do artista!

 

E agora, qual o propósito da nossa música? Pense junto comigo! Quando a música é composta, ela traduz um sentimento, comunica alguma coisa.

Quando alguém muda a versão da música, não muda só o instrumental, muda a ideia original da música…

OK, viemos bem até aqui, agora vamos resolver este negócio.

Observando o estilo musical em questão, o idioma em que se canta a letra, não se pode esperar acordes compostos, melodias dificílimas, isto elevaria a música a um nível quase intocável ao público comum, que é quem deveria comprar a música.

O público precisa entender, precisa se sentir próximo da música, a música tem que fazer parte do meu mundo pra que eu possa gostar dela…

Que coisa existe de mais próximo do nosso dia-a-dia do que assovios? E mais do que isso, assovios desafinados…

Trocando em miúdos, você não precisa ter ritmo, nem ser afinado, a música também não é! Fácil, talvez, para quem já seja músico, perfeita para “alguém que não entende nada de música”!

A música segue sendo assim, por isso temos gostos diferentes, por isso ouvimos temas diferentes ao longo da vida, por isso somos musicalmente distintos, porque cada um tem a sua experiência pessoal e musical.

Por isso gostamos de canções que os outros ouvem e riem de nós, porque elas nos dizem alguma coisa, nos lembram, nos oferecem alguma ideia, e isto é algo totalmente pessoal.

Resolvido o problema, deixa desafinada, vendeu assim, pois foi feita assim exatamente para vender.

E quando eu for compor, vou lembrar de pensar no ouvinte, coisa que nos falta muito hoje em dia, e, de preferência, oferecer uma ideia positiva, como é o papel da música.

Um comentário sobre “Música desafinada vende?

  1. Avatar de alisonzigulich

    Baita texto Rick!
    Lembro desse dia. Ainda fez um comentário durante a música na aula.
    Mas sobre o texto, achei muito bacana quando comentou sobre “pensar no ouvinte”.
    Acredito que essa é uma peça chave para qualquer trabalho bem feto: “pensar em que vai receber”.
    Um abraço!

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